Quase toda barbearia no Brasil começa como MEI. É o caminho mais barato e mais rápido para ter CNPJ, emitir nota, aceitar cartão como pessoa jurídica e contribuir para a aposentadoria. O problema aparece depois: a barbearia cresce, o faturamento sobe, e o dono descobre — às vezes tarde demais — que estourou o teto e precisa pagar imposto retroativo.
Este guia responde as três perguntas que realmente importam: quanto custa ser MEI hoje, até onde dá para crescer dentro dele e como identificar o momento exato de migrar para Microempresa sem levar susto.
Barbeiro pode ser MEI?
Pode. A atividade está na lista de ocupações permitidas ao Microempreendedor Individual, sob o CNAE 9602-5/01 — Cabeleireiros, manicure e pedicure, com as ocupações "Barbeiro, independente" e "Cabeleireiro(a), independente" (Portal do Empreendedor).
Isso vale tanto para o profissional que atende sozinho quanto para quem tem uma loja de rua com cadeira própria. O que define o enquadramento não é o tamanho da placa na fachada, é o faturamento, o número de empregados e a estrutura societária.
Um MEI de barbearia pode:
- Ter CNPJ e conta bancária pessoa jurídica
- Emitir nota fiscal de serviço
- Contratar um empregado, que receba um salário mínimo ou o piso da categoria
- Vender produtos (pomada, óleo, shampoo) junto com o serviço
- Contribuir para o INSS e ter direito a aposentadoria, auxílio por incapacidade e salário-maternidade
E não pode:
- Ter sócio
- Ser sócio, titular ou administrador de outra empresa
- Abrir filial (uma segunda unidade exige outro enquadramento)
- Faturar acima do teto anual
Quanto o MEI paga por mês em 2026
O MEI não paga imposto sobre o faturamento. Paga um valor fixo mensal, o DAS, que reúne a contribuição previdenciária (5% do salário mínimo) mais o imposto da atividade.
| Tipo de atividade | Composição | Valor mensal em 2026 |
|---|
| Serviços (barbearia, salão) | INSS + ISS | R$ 86,05 |
| Comércio ou indústria | INSS + ICMS | R$ 82,05 |
| Comércio e serviços | INSS + ICMS + ISS | R$ 87,05 |
Uma barbearia que só presta serviço recolhe R$ 86,05. Se a loja também vende produtos com nota de mercadoria, o enquadramento correto costuma ser comércio e serviços, com DAS de R$ 87,05 (Tabela MEI 2026).
Vale registrar a proporção: uma barbearia que fatura R$ 6.000 por mês paga cerca de 1,4% disso em tributos. Não existe regime mais barato no Brasil para esse porte. É exatamente por isso que o teto importa tanto — sair do MEI é sair do melhor negócio tributário disponível.
Além do DAS, o MEI entrega uma declaração anual, a DASN-SIMEI, até 31 de maio, informando o faturamento bruto do ano anterior. É uma tela só, sem contador obrigatório, mas a multa por atraso começa em R$ 50.
O limite de faturamento em 2026: R$ 81 mil
O teto continua em R$ 81.000 por ano, o que dá uma média de R$ 6.750 por mês. E aqui mora a confusão mais comum do regime: o limite é anual, não mensal.
Você pode faturar R$ 4.000 em fevereiro e R$ 11.000 em dezembro. Ninguém vai reclamar, desde que a soma dos doze meses fique abaixo de R$ 81 mil. A média mensal é uma referência de acompanhamento, não uma regra.
Duas situações mudam a conta:
Abriu o CNPJ no meio do ano. O limite é proporcional: R$ 6.750 multiplicado pelo número de meses em atividade, contando o mês de abertura. Quem abriu em setembro tem teto de R$ 27.000 naquele ano, não R$ 81 mil.
Trabalha no regime de salão-parceiro. A cota-parte repassada ao profissional parceiro não integra a receita bruta do salão para fins de enquadramento — está no artigo 1º-A, §5º da Lei 13.352/2016. Uma barbearia que movimenta R$ 150 mil por ano, dos quais R$ 80 mil são cota-parte dos parceiros, tem receita própria de R$ 70 mil. Explicamos essa mecânica em detalhe no guia da Lei do Salão-Parceiro.
O novo teto do MEI: o que está em discussão e o que já vale
Em 29 de junho de 2026, o governo enviou ao Congresso o PLP 186/2026, que propõe elevar o teto do MEI para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, além de permitir a contratação de até dois empregados (Câmara dos Deputados).
Atenção ao ponto que a maior parte do conteúdo circulando na internet omite: o projeto ainda está em tramitação e não foi sancionado. Ele passa por comissão especial na Câmara e depende de aprovação nas duas casas antes de virar lei.
Na prática, para 2026 nada mudou. O teto que vale é R$ 81 mil, e planejar o ano contando com R$ 110 mil é assumir um risco desnecessário. Se o projeto for aprovado, o novo limite começa a valer em 2027 — e mesmo assim é bom acompanhar o texto final, porque números de projeto mudam durante a tramitação.
Estourei o limite. E agora?
Aqui está a parte que mais custa dinheiro para quem não acompanha o faturamento. As regras mudam conforme o tamanho do excesso.
Excesso de até 20% (faturamento até R$ 97.200)
Você continua como MEI até 31 de dezembro. Precisa recolher um DAS complementar sobre o valor que passou do teto e passa a ser Microempresa a partir de 1º de janeiro do ano seguinte.
É o cenário controlado. Dói, mas é previsível.
Excesso acima de 20% (faturamento acima de R$ 97.200)
O desenquadramento é retroativo a 1º de janeiro do próprio ano em que o excesso ocorreu. Ou seja: você passa a ser tratado como Microempresa desde janeiro e precisa recolher os tributos do Simples Nacional referentes a todo o ano, com juros e multa sobre o que não foi pago no vencimento.
Uma barbearia que fecha o ano com R$ 120 mil descobre em janeiro que devia ter recolhido Simples Nacional desde o primeiro mês. A conta chega junto, de uma vez, com correção.
O prazo da comunicação
O desenquadramento é obrigatório e de iniciativa sua. A comunicação deve ser feita no Portal do Simples Nacional até o último dia útil do mês seguinte àquele em que o excesso ocorreu (Receita Federal). Não é a Receita que te avisa — é você que informa.
Quando migrar para Microempresa
Sair do MEI não é fracasso, é etapa. E as barbearias têm uma vantagem tributária que a maior parte dos prestadores de serviço não tem.
Serviços de beleza vão direto para o Anexo III do Simples Nacional, cuja alíquota nominal começa em 6% para receita de até R$ 180 mil em doze meses, sem precisar passar pelo teste do Fator R (Anexo III do Simples Nacional). Atividades que caem no Anexo V só chegam ao Anexo III se comprovarem folha de pagamento equivalente a 28% da receita — barbearia não precisa dessa comprovação.
Traduzindo: a mordida sobe de aproximadamente 1,4% para algo em torno de 6% da receita, e você passa a ter contador obrigatório e obrigações acessórias mensais. É mais caro, mas continua sendo um dos regimes mais leves do país.
Sinais de que chegou a hora de planejar a migração, mesmo antes de estourar:
- O faturamento acumulado dos últimos doze meses passou de R$ 65 mil (80% do teto)
- Você precisa do segundo funcionário — o MEI só admite um
- Vai abrir uma segunda unidade, o que o MEI não comporta
- Quer receber um sócio no negócio
- Fecha contratos com empresas que exigem porte maior
O erro clássico é migrar em janeiro, correndo, porque a virada do ano trouxe a conta. O acerto é enxergar a curva em agosto e chegar em dezembro com contador contratado e transição planejada.
Como acompanhar o faturamento e não ser pego de surpresa
O MEI que estoura o teto quase nunca estourou por crescer rápido demais. Estourou porque não sabia quanto tinha faturado. Dinheiro entra por PIX, cartão, espécie e transferência, cada um cai em um lugar, e a soma nunca é feita.
O que resolve o problema:
- Fechar o caixa todo dia. Sem exceção, mesmo nos dias fracos. Fechamento diário transforma faturamento em número conhecido, não em estimativa.
- Registrar toda venda no mesmo lugar, inclusive as de produto e as pagas em espécie. Faturamento que não passa pelo sistema é faturamento que a Receita ainda enxerga, via cartão e PIX, mas você não.
- Olhar o acumulado dos últimos doze meses, não o do ano corrente. O limite é medido no ano-calendário, mas a curva de doze meses móveis mostra a tendência com antecedência.
- Marcar dois alertas: 70% do teto (R$ 56.700) para começar a conversar com contador e 90% (R$ 72.900) para decidir se segura o pé ou aceita a migração.
Como Começar Hoje
Com um sistema de gestão como o Barbeiro.app, esses quatro passos deixam de ser planilha e viram rotina:
- Crie sua conta gratuita e cadastre seus serviços e preços
- Registre as vendas no caixa — PIX, cartão, espécie e produto no mesmo lugar
- Acompanhe o relatório de faturamento por período e veja o acumulado sem somar nada à mão
- Emita NFS-e direto do sistema quando o cliente pedir
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FAQ - Perguntas Frequentes
Barbearia MEI precisa emitir nota fiscal?
Para cliente pessoa física, o MEI está dispensado de emitir nota fiscal, embora possa emitir se quiser. Para cliente pessoa jurídica, a emissão é obrigatória. Muitos municípios já exigem a NFS-e no padrão nacional, então a recomendação prática é emitir sempre: organiza o controle de faturamento e evita discussão com a prefeitura.
Posso ser MEI e ter uma barbearia com três cadeiras?
Pode ter as cadeiras, mas não pode ter três empregados. O MEI admite um empregado apenas. Se os outros profissionais forem parceiros formalizados sob a Lei 13.352/2016, com CNPJ próprio, o arranjo é possível — e a cota-parte deles não conta no seu teto. O que não existe é MEI com carteira assinada de duas ou mais pessoas.
O que acontece se eu não comunicar o desenquadramento?
A Receita faz o desenquadramento de ofício quando identifica o excesso, com efeitos retroativos e sem a chance de você escolher a data. Além disso, você fica sujeito a multa e ao recolhimento dos tributos devidos com juros. Comunicar dentro do prazo é sempre mais barato do que ser encontrado.
O novo teto de R$ 140 mil já vale?
Não. O PLP 186/2026 foi enviado ao Congresso em junho de 2026 e está em tramitação. Enquanto não for aprovado e sancionado, o teto vigente é R$ 81 mil por ano. A proposta prevê R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, mas valores de projeto podem mudar durante a discussão.
Quanto custa sair do MEI e virar Microempresa?
O custo direto é a alíquota do Simples Nacional, que começa em 6% da receita no Anexo III, mais o honorário do contador, que varia bastante por cidade e porte. Some também as obrigações mensais que passam a existir. Na prática, a migração compensa quando o faturamento adicional cobre a diferença — o que costuma acontecer bem antes do que o dono imagina.
MEI de barbearia pode vender produtos?
Pode, e deveria. A venda de pomada, óleo, shampoo e cera aumenta o ticket sem ocupar mais tempo de cadeira. O ponto de atenção é o enquadramento: se a venda de mercadoria é relevante, o CNAE precisa refletir comércio e serviços, e o DAS passa a ser o de atividade mista.
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